
Aqui está uma excelente entrevista, como não podia deixar de ser sendo de quem é, com Serj Tankian feita pela revista Rip It Up em Los Angeles:
Podemos começar com os antecedentes do álbum, onde o gravou e como aconteceu?
Eu gravei-o no meu estúdio e muitas das músicas foram escritas no piano ou na viola. Escrevo muita música para diferentes aplicações. Eu simplesmente escrevo música, sabe, é o meu filme. Tenho centenas e centenas de músicas não lançadas. Algumas são electrónicas. Algumas são clássicas – piano, cordas. Algumas são experimentais, algumas são góticas, algumas são rock, algumas são punk. Algumas eu uso para vídeo jogos, para trilha sonora de filmes, orquestração, composição. E essas são músicas que eu mesmo queria cantar. Eram músicas com as quais eu tinha uma certa afinidade emocional melodicamente.
Então, por que é que essas músicas eram mais pessoais?
É difícil de explicar – é simplesmente a vibe. Essas músicas são mais pessoais do que qualquer coisa que já fiz antes porque elas são mais “eu”. Tem mais conteúdo de mim enquanto artista, compositor e produtor do que qualquer outra coisa. Então, por essa razão, são mais pessoais. Eu acho que em termos de letra é mais intima também, porque estou a representar somente a mim mesmo. Não tenho uma banda na qual estou, sabe, parceiros que eu esteja representando por si, então é obviamente mais intima e pessoal.
Foi mais difícil de ser objectivo?
Eu acho que poderia ter sido mais difícil ser objectivo como produtor, não como artista ou compositor. Mas ganhei experiência através do tempo produzindo diferentes artistas para meu selo, Serjical Strike Records e eu co-produzi material que fiz com os System. Então foi uma experiência interessante. Eu faço muitas das diferentes personagens, porque fiz vários papéis, carreguei muitos chapéus neste disco. Inicialmente eu estava céptico sobre me produzir a mim mesmo porque eu não queria sabotar o projecto se o valor da minha produção obstruísse a arte em si. Mas no fim funcionou realmente bem porque fiz passo-a-passo, fiz tudo que queria fazer. Sabia exactamente que tipo de som estava procurando. Da entoação que estava procurando, a instrumentação, o arranjo, até mesmo a frequência. Eu sabia exactamente o que queria, então foi fácil finalizar sem outro produtor.
Por que você escolheu ‘Empty Walls’ para single?
A razão porque a escolhi como single é pela perfeita harmonia, musicalmente, do material que está no disco. Em termos de letra, eu não gosto muito de definir coisas. Gosto que as pessoas a interiorizem por elas próprias, como uma peça de arte, eu acho que é mais poderoso quando as pessoas fazem suas próprias histórias a partir de coisas que estão na música ou na arte. Uma das interpretações que eu daria é que os muros vazios são as coisas que nos impedem de nos conectarmos a outros seres e a outros eventos que acontecem ao nosso redor ou ao redor do mundo com os quais nós precisamos de ser empáticos.
Por exemplo?
Guerra, fome, genocídio, vítimas de crimes, vítimas de estupro, vítimas de desastres ecológicos, seja o que for.
Como se sente em relação a essa atitude anti-americana ao redor do mundo?
É mais um sentimento anti-imperialista do que anti-americano. Muitos países do oeste europeu perderam seus impérios ao longo do tempo e agora eu suponho que sejam os americanos. De um modo diferente, é claro, e não é algo que o povo americano esteja realmente consciente. É mais um “império subtil”, por assim dizer, porque é mais guiado por economia e recursos. Mais que ocupação de terras, o que é claro, ocorria e ocorre, no Iraque e em outras partes. Então eu acho que é mais isso. Não acho que seja qualquer outra coisa. Não acho que seja algo cultural.
Você tem uma banda?
Eu juntei uma banda, nós estamos ensaiando. Escolhi amigos que são bons músicos também. Escolhi um baixista e um baterista. Eu mesmo tocarei alguns instrumentos, dependendo da música e veremos como vai ficar.
Como é que os System of a Down se sentem em relação a isso?
Nós estamos em hiatus indefinido. Estamos todos fazendo as nossas próprias coisas. Somos todos amigos. Todos apoiam os projectos uns dos outros e damos sugestões.
Tocou o seu álbum para eles?
A banda não é uma corporação, são pessoas. Eu estive com alguns e toquei o álbum para eles e eles tocaram os seus materiais para mim.
Quão distante dos System está o seu álbum?
Bom, ainda é rock. Não tem tanta influência metal. Mas ainda é muito tocante e dinâmico. Mais piano e cordas que os System. Definitivamente um certo tom e som mesmo que haja guitarras e bateria em ambos. Definitivamente uma profunda diferença no som, sabe. Em termos de letras, como eu disse, é mais pessoal. Mais intimo, mais vulnerável até. Quer dizer, é um álbum de rock e estou a cantar nele, então há músicas que posso ver que traria algumas comparações. Mas por outro lado, o álbum vai noutra direcção.
Você acha que é mais ou menos político que System?
Os System nunca foram uma banda inteiramente política. Eu acho que os jornalistas costumavam gravitar para as nossas mensagens políticas mais do que para uma música como ‘Vicinity of Obscenity’, que é muito louca. Um certo percentual era político e é o mesmo com o meu material. Eu sempre fui assim. Nunca poderia escrever sobre um só tópico num disco.
Como é que o facto de ser armênio tem influenciado a sua música? Obviamente nós podemos ouvir influências do Orientais Médio. É uma pergunta difícil porque você não sabe como é não ser armênio, mas como é que você acha que influencia?
Eu creio que seja subtil, sabe? Há música subtil e certos climas que aparecem na música. Eu acho que há uma melancolia profunda neste disco.
Um amigo meu ouviu o disco e sentiu que havia um sentimento de melancolia muito profundo do universal para o pessoal com um sinal de esperança no final. Esse foi o sentimento dele em relação ao disco. E é parte da característica Armênia, uma profunda melancolia na nossa história nacional, mas com um sorriso no final.
Você acha que há uma falta de melancolia na cultura americana?
Quer dizer Prozac demais?
Quero dizer orgulho nacional demais sem nada por trás?
Eu não sei o que quer dizer.
Eu quero dizer, por você ter uma história rica, enquanto que aqui nos livros-texto das crianças dizem que a América É o melhor país do mundo.
Eles colocam isso em livros-texto? Não brinque! Uau! Eu não sabia disso. Acho que é ridículo porque isso não torna acessível o mundo em que vivemos. O mundo é um lugar tão pequeno hoje, globalmente e economicamente, por nossa comunicação e transporte ser tão mais simples. Mas isso é triste. Eu vejo aquele orgulho entre cidades no mundo, não em todo o lugar mas em muitos locais diferentes existem panelinhas e esse é um dos problemas da civilização.
Parte disso é religião?
Sim, parte é isso, e isto também nasceu na civilização. Todas as religiões modernas podem apenas carregar uma parte da verdade porque todas elas nasceram na cidade da civilização, elas nunca vêem nada fora dela [da cidade].
Considera-se uma pessoa religiosa, uma pessoa espiritual ou ambas?
Seja como for que você defina espiritualidade, eu tenderia a ser mais propenso a me definir dessa forma. Eu não faço parte de nenhuma religião organizada de nenhuma forma. E quando as pessoas me perguntam qual é a minha religião na verdade, eu digo: ‘é a mesma da árvore’. E eles dizem: ‘e qual é essa [religião]?’ e eu sempre digo: ‘bom, pergunta à árvore’. [Risos] Simples.
O que quer dizer?
Eu vivo sob as mesmas leis naturais que a árvore ali fora da nossa janela. Então qualquer relevância que haja do meu entendimento lógico da minha religião ou lado espiritual é um tanto secundário ao que a minha real espiritualidade é. Porque aquela árvore não tem conhecimento de sua existência mas tem a mesma espiritualidade das leis naturais que eu tenho. Estou mais interessado na interpretação mais indígena do que o lado espiritual significa. Vejo um paralelo entre os Americanos Nativos, os Aborígines, os Maori, os Kahunas havaianos, toda a cultura pré-civilização. Porque eles eram todos baseados na natureza, eles têm vários e determinados grupos que são muito semelhantes sem estarem em contacto uns com os outros. Eles são mais intuitivos.
Você tem um fascínio particular pela Nova Zelândia?
Na verdade sou um residente. Eu tenho lá uma casa.
Porquê Nova Zelândia?
Por muitas razões: a número um é que eles são ecologicamente progressistas, não muito desenvolvidos. É não-nuclear, com alimentos não modificados, a primeira ‘primeira ministra’ mulher da história. E pessoas agradáveis e realmente autênticas.
Quanto tempo passa lá?
Sempre que posso. Varia porque eu não tenho um trabalho das 9 às 5, então quando estou de férias posso ir por um longo tempo.
Quando é que os System of a Down se reunirão para outro álbum?
Não sei. Nós estamos a gostar de fazer as nossas próprias coisas nesse momento. Se nós quisermos reunir-nos e fazer algo mais à frente, seja um disco ou uma tour, nós iremos.